{"id":6999,"date":"2023-06-28T09:39:00","date_gmt":"2023-06-28T09:39:00","guid":{"rendered":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/?p=5132"},"modified":"2023-06-28T09:39:00","modified_gmt":"2023-06-28T09:39:00","slug":"estamos-a-criar-criancas-totos-de-uma-imaturidade-inacreditavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/estamos-a-criar-criancas-totos-de-uma-imaturidade-inacreditavel\/","title":{"rendered":"&#8220;Estamos a criar crian\u00e7as tot\u00f3s, de uma imaturidade inacredit\u00e1vel&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>Quanto mais recreio, mais aten\u00e7\u00e3o nas aulas. Quanto menos liberdade para brincar, maior o risco de acidentes. Carlos Neto, professor da FMH, explica por que tem de ser travado o &#8220;terrorismo do n\u00e3o&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos Neto \u00e9 professor e investigador da Faculdade de Motricidade Humana (FMH), em Lisboa. Trabalha com crian\u00e7as h\u00e1 mais de quarenta anos e h\u00e1 uma coisa que o preocupa: o sedentarismo, a falta de autonomia dada pelos pais \u00e0s crian\u00e7as e a aus\u00eancia de tempo para elas brincarem livremente, correndo riscos e tendo aventuras. \u00c9 um problema que tem de ser combatido, diz. Porque a aus\u00eancia de risco na inf\u00e2ncia e o facto de se dar \u201ctudo pronto\u201d aos filhos, cada vez mais superprotegidos pelos pais, acaba por p\u00f4-los em perigo.&nbsp;Solu\u00e7\u00f5es? Uma delas passa por&nbsp;\u201cdeixar de usar a linguagem terrorista de dizer n\u00e3o a tudo: n\u00e3o subas, olha que cais, n\u00e3o v\u00e1s por a\u00ed\u2026\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/s3.observador.pt\/wp-content\/uploads\/2015\/06\/carlos-neto06.jpg\"><\/a><\/p>\n\n\n\n<p id=\"caption-attachment-562507\">Carlos Neto trabalha com crian\u00e7as h\u00e1 48 anos. \u00a9 Michael M. Matias\/Observador<\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 dez anos j\u00e1 se falava no sedentarismo&nbsp;das crian\u00e7as portuguesas. Lembro-me que dizia que&nbsp;uma crian\u00e7a saud\u00e1vel \u00e9 aquela que traz os joelhos esfolados. Como estamos hoje?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dez anos n\u00f3s fal\u00e1vamos que as crian\u00e7as tinham agendas, hoje digo&nbsp;que t\u00eam super-agendas!&nbsp;H\u00e1 dez anos eu dizia que as crian\u00e7as saud\u00e1veis eram as que tinham os joelhos esfolados. Hoje, acho que os joelhos j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o esfolados, mas a cabe\u00e7a destas crian\u00e7as j\u00e1 come\u00e7a a estar esfolada, por n\u00e3o terem tempo nem condi\u00e7\u00f5es para brincar livremente. Brincar n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 jogar com brinquedos, brincar \u00e9 o corpo estar em confronto com a natureza, em confronto com o risco e com o imprevis\u00edvel, com a aventura.<\/p>\n\n\n\n<p>PUB \u2022 CONTINUE A LER A SEGUIR<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Os joelhos j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o esfolados, mas a cabe\u00e7a destas crian\u00e7as j\u00e1 come\u00e7a a estar esfolada, por n\u00e3o terem tempo nem condi\u00e7\u00f5es para brincar livremente<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as brincam porque procuram aquilo que \u00e9 dif\u00edcil, a supera\u00e7\u00e3o, a imprevisibilidade, aquilo que \u00e9 o gozo, o prazer. E,&nbsp;portanto, as crian\u00e7as que eu apelido de&nbsp;crian\u00e7as \u201ctot\u00f3s\u201d, s\u00e3o hoje definidas como crian\u00e7as superprotegidas, crian\u00e7as que n\u00e3o t\u00eam&nbsp;tempo suficiente para brincar e crian\u00e7as que n\u00e3o t\u00eam tempo nem espa\u00e7o para exprimir o que s\u00e3o os seus desejos. E o primeiro desejo de uma crian\u00e7a \u00e9 o disp\u00eandio de energia, \u00e9 brincar livre e com os outros, mesmo que muitas vezes em confronto. Porque o confronto \u00e9 uma forma preciosa de aprendizagem na vida humana. E n\u00f3s estamos a retir\u00e1-los de tudo isso. Estamos a dar tudo pronto e n\u00e3o estamos a confront\u00e1-los com nada. E isso ter\u00e1&nbsp;muitas consequ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Estamos a falar de que idades?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estamos a falar de crian\u00e7as entre os 3 e os 12 anos. Significa que aumentou de facto esta taxa de sedentarismo, eu diria mesmo de analfabetismo motor, estamos a falar de iliteracia motora. Trabalho h\u00e1 48 anos com crian\u00e7as e sei avaliar o que se passou. As crian\u00e7as t\u00eam menos capacidade de coordena\u00e7\u00e3o, menos capacidade de perce\u00e7\u00e3o espacial, t\u00eam de facto menor prazer de utilizar o corpo em esfor\u00e7o, t\u00eam uma dificuldade de jogo em grupo, de ter possibilidades de ter aqueles jogos que fazem parte da idade. Ao mesmo tempo, institucionalizou-se muito a escola.&nbsp;N\u00f3s hoje temos as crian\u00e7as sentadas durante muito tempo, n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica efetiva adequada de recreios escolares. Os recreios s\u00e3o organizados muitas vezes em fun\u00e7\u00e3o de um modelo de trabalho, ou de um modelo de funcionamento pedag\u00f3gico, que tem a ver mais com as aprendizagens pedag\u00f3gicas obrigat\u00f3rias ou consideradas \u00fateis, e muito menos com as&nbsp;atividades do corpo em movimento. E, por isso, h\u00e1 alguns trabalhos de investiga\u00e7\u00e3o que temos vindo a fazer, onde tentamos mostrar a&nbsp;correla\u00e7\u00e3o entre o tempo que as crian\u00e7as t\u00eam de recreio, a qualidade de atividade que fazem no recreio e a capacidade de aprendizagem na sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Temos hoje crian\u00e7as de 3 anos que, ao fim de dez minutos de brincadeira livre, dizem que est\u00e3o cansadas, temos crian\u00e7as de 5 e 6 anos que n\u00e3o sabem saltar ao p\u00e9-coxinho. Temos crian\u00e7as com 7 anos que n\u00e3o sabem saltar \u00e0 corda, temos crian\u00e7as de 8 anos que n\u00e3o sabem atar os&nbsp;sapatos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A que conclus\u00f5es j\u00e1 chegaram?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma delas \u00e9 que&nbsp;as crian\u00e7as que s\u00e3o mais ativas no recreio, e que t\u00eam mais socializa\u00e7\u00e3o, t\u00eam na sala de aula mais capacidade de aten\u00e7\u00e3o e de concentra\u00e7\u00e3o. Isto tem a ver com uma tend\u00eancia que est\u00e1 a acontecer em quase todo o mundo, de restringir o tempo de recreio para ter mais tempo na sala de aula. O que n\u00f3s conclu\u00edmos \u00e9 que o tempo de recreio \u00e9 absolutamente fundamental para a sa\u00fade mental e para a sa\u00fade f\u00edsica da crian\u00e7a. O recreio escolar \u00e9 o \u00faltimo reduto que a crian\u00e7a tem durante a semana para brincar livremente. E,&nbsp;de facto, verificamos esta rela\u00e7\u00e3o muito clara entre ser ativo no recreio e estar concentrado dentro da sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>As crian\u00e7as mais ativas t\u00eam mais capacidade de aprendizagem e mais capacidade de concentra\u00e7\u00e3o. E t\u00eam, a m\u00e9dio e a longo prazo, mais capacidade de terem sucesso.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Isto vem ao encontro de algumas investiga\u00e7\u00f5es que t\u00eam sido feitas nos Estados Unidos, que relacionam o ser ativo com o desenvolvimento do c\u00e9rebro e com o desenvolvimento neurol\u00f3gico. E,&nbsp;de facto, demonstra-se claramente que as crian\u00e7as mais ativas t\u00eam mais capacidade de aprendizagem e mais capacidade de concentra\u00e7\u00e3o. E t\u00eam, a m\u00e9dio e a longo prazo, mais capacidade de terem sucesso, mais autoestima e maior capacidade de autoregula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Esta quest\u00e3o dos recreios e do tempo que as crian\u00e7as t\u00eam de passar sentadas na sala de aula est\u00e1 de alguma forma&nbsp;relacionada com o aumento dos diagn\u00f3sticos de casos de hiperatividade? Muitos destes casos podem ocorrer porque&nbsp;as crian\u00e7as n\u00e3o despendem a energia f\u00edsica que \u00e9 suposto despenderem?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os curr\u00edculos hoje est\u00e3o a ser demasiado exigentes quanto ao n\u00famero de horas em que as crian\u00e7as t\u00eam de estar sentadas.&nbsp;Devemos ter um plano para tornar a sala de aula mais ativa. Acabamos de fazer um programa com o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, o Fit Escola,&nbsp;que \u00e9 uma plataforma que tem como objetivo ajudar os pais, os alunos e os professores a tornarem as crian\u00e7as um pouco mais ativas. E uma das ideias base \u00e9 esta:&nbsp;se mud\u00e1ssemos a configura\u00e7\u00e3o das mesas e das cadeiras da sala de aula \u2014 estando as crian\u00e7as a adquirir conhecimentos fundamentais, mas estando a faz\u00ea-lo de forma ativa \u2013, n\u00e3o aprenderiam melhor?<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u00c9 inaceit\u00e1vel que 220 mil crian\u00e7as estejam medicadas em Portugal. Isto n\u00e3o pode acontecer.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>H\u00e1 aqui um fator muito importante que tem a ver com a&nbsp;maneira como os adultos, professores ou pais, est\u00e3o neste momento a controlar as energias das crian\u00e7as. Numa grande parte dos casos essa energia \u00e9 natural, mas \u00e9 considerada hoje como doen\u00e7a ou inapropriada. \u00c9&nbsp;inaceit\u00e1vel que 220 mil crian\u00e7as estejam medicadas em Portugal. Isto n\u00e3o pode acontecer. Tem de haver um maior esclarecimento para verificar efetivamente se aquelas crian\u00e7as merecem ser medicadas porque s\u00e3o de facto&nbsp;hiperativas ou t\u00eam d\u00e9fice de aten\u00e7\u00e3o. Mas acredito que&nbsp;uma grande parte dessas crian\u00e7as n\u00e3o necessita&nbsp;de ser medicada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>H\u00e1 crian\u00e7as de 11 anos que entram \u00e0s 8h15 e saem as 13h15 com apenas dois recreios de 15 minutos neste espa\u00e7o de tempo, em que as aulas s\u00e3o sempre de 90 minutos. Nem um adulto trabalha tanto tempo seguido\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Pois n\u00e3o. Isso \u00e9 contra natura, n\u00e3o tem a ver com as culturas de inf\u00e2ncia. Temos de ter um maior equil\u00edbrio entre o que \u00e9 uma estimula\u00e7\u00e3o organizada e uma estimula\u00e7\u00e3o ocasional, ou seja, entre o que \u00e9 tempo livre, tempo de jogo livre, e o que \u00e9 tempo de organiza\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Brincar n\u00e3o \u00e9 perder tempo, no seu entender\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o. E&nbsp;por uma raz\u00e3o. Todos os estudos t\u00eam vindo a demonstrar que na inf\u00e2ncia, at\u00e9 aos 10\/12 anos de idade, \u00e9 absolutamente essencial&nbsp;brincar para desenvolver a capacidade adaptativa, quer do ponto de vista biol\u00f3gico quer do ponto de vista social. E hoje n\u00e3o \u00e9 isso que estamos a fazer. Estamos a dar tudo pronto, tudo feito, e n\u00e3o estamos a confrontar as crian\u00e7as com problemas que elas t\u00eam de resolver. Sejam eles confrontos com a natureza \u2013 que deixaram de existir \u2013 sejam eles confrontos com os outros.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Brincar \u00e0 luta \u00e9 saud\u00e1vel. \u00c9 um indicador de vida saud\u00e1vel das crian\u00e7as. Como correr atr\u00e1s de algu\u00e9m, ou ser perseguido. Brincar \u00e9 civilizar o corpo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Por exemplo, a luta, a corrida e persegui\u00e7\u00e3o, s\u00e3o comportamentos ancestrais que as crian\u00e7as t\u00eam de viver na inf\u00e2ncia e que s\u00e3o&nbsp;essenciais para o crescimento. A&nbsp;apropria\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, a no\u00e7\u00e3o de lugar, o medir for\u00e7as de uma forma saud\u00e1vel, o brincar a lutar. Hoje observamos comportamentos na escola, quer por parte dos pais quer por parte dos educadores, que n\u00e3o s\u00e3o corretos. Porque quando veem duas crian\u00e7as agarradas v\u00e3o logo separ\u00e1-las \u2014 e elas muitas vezes est\u00e3o a brincar \u00e0 luta, e brincar \u00e0 luta \u00e9 saud\u00e1vel. \u00c9 um indicador de vida saud\u00e1vel das crian\u00e7as. Como correr atr\u00e1s de algu\u00e9m, ou ser perseguido. Brincar \u00e9 civilizar o corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o tenho nada contra os exames, nem contra as metas escolares. Agora, os exames e as metas curriculares n\u00e3o podem impedir que n\u00e3o se fa\u00e7a uma reflex\u00e3o daquilo que a crian\u00e7a necessita para crescer de forma saud\u00e1vel. E,&nbsp;de facto, esta rela\u00e7\u00e3o entre tempo sentado e tempo ativo precisa de uma maior reflex\u00e3o no sistema educativo, sob pena de termos grav\u00edssimos problemas de sa\u00fade p\u00fablica a curto e a m\u00e9dio prazo. N\u00f3s vamos pagar muito caro o facto de n\u00e3o termos esse equil\u00edbrio entre estimula\u00e7\u00e3o organizada e informal. E&nbsp;quanto mais descemos na inf\u00e2ncia pior.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;As crian\u00e7as brincam porque procuram aquilo que \u00e9 dif\u00edcil, a supera\u00e7\u00e3o, a imprevisibilidade, aquilo que \u00e9 o gozo, o prazer. E, portanto, aquilo a que eu chamo crian\u00e7as &#8220;tot\u00f3s&#8221;, s\u00e3o hoje definidas como crian\u00e7as superprotegidas, crian\u00e7as que n\u00e3o t\u00eam tempo suficiente para brincar e crian\u00e7as que n\u00e3o t\u00eam tempo nem espa\u00e7o para exprimir o que s\u00e3o os seus&nbsp;desejos.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os adultos, tanto pais como educadores, t\u00eam tamb\u00e9m \u201cculpa\u201d nesta mat\u00e9ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o pode haver uma linguagem terrorista, que \u00e9 pr\u00f3pria dos adultos, que impede as crian\u00e7as de viverem certo tipo de situa\u00e7\u00f5es de risco. Quer&nbsp;isto dizer que a&nbsp;linguagem e as proibi\u00e7\u00f5es que v\u00eam das bocas dos adultos, o n\u00e3o sistem\u00e1tico e persecut\u00f3rio, n\u00e3o permitir que as crian\u00e7as tenham&nbsp;certo tipo de experi\u00eancias que incluem n\u00edveis de risco maiores, s\u00f3 est\u00e3o a conduzir a um&nbsp;analfabetismo motor e social.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que tipo de \u201cn\u00e3os\u201d?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cn\u00e3o subas\u201d, o \u201colha que cais\u201d, \u201cn\u00e3o v\u00e1s para ali\u201d, \u201ctem cuidado\u201d, \u201cn\u00e3o trepes \u00e0 \u00e1rvore\u201d. Impedem as crian\u00e7as de terem estas experi\u00eancias, que s\u00e3o pr\u00f3prias da idade. Instalaram-se medos nas cabe\u00e7as dos adultos. Medos das crian\u00e7as serem aut\u00f3nomas. N\u00f3s nascemos para sermos aut\u00f3nomos e para termos, ao longo do processo de desenvolvimento, maior autonomia e maior independ\u00eancia. Basta ver como \u00e9 que as crian\u00e7as hoje vivem a cidade, como as cidades est\u00e3o preparadas para as crian\u00e7as. N\u00f3s estamos a cometer o erro de querer obter sucessos rapidamente, de querer que as crian\u00e7as cres\u00e7am rapidamente, de que estejam todos inclu\u00eddos nos <em>rankings<\/em>, mas estamos pouco preocupados com as suas culturas pr\u00f3prias. N\u00e3o se est\u00e1 a ver o ator, n\u00e3o se est\u00e1 a ver o aluno. Na escola o que deveria emergir era o aluno e a crian\u00e7a, o que emerge \u00e9 o professor e a burocracia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As crian\u00e7as andam pouco na rua? T\u00eam pouca autonomia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dou um exemplo, os percursos escola-casa. Hoje, a maioria das crian\u00e7as faz estes trajetos de carro, quando h\u00e1&nbsp;30 anos o faziam a p\u00e9. Hoje, as crian\u00e7as t\u00eam uma viv\u00eancia do territ\u00f3rio de forma visual e n\u00e3o de forma corporal. Quer dizer que as aventuras e as brincadeiras, em contacto com a natureza, desapareceram.<\/p>\n\n\n\n<p>As novas tecnologias passaram a ter um lugar privilegiado no quotidiano da crian\u00e7a. Eu n\u00e3o tenho nada contra as novas tecnologias, mas tem de haver bom senso e um crit\u00e9rio de saber gerir bem o tempo e o espa\u00e7o destas novas tecnologias, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que s\u00e3o as necessidades biol\u00f3gicas do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Como \u00e9 que queremos que as nossas crian\u00e7as sejam empreendedoras se estamos a retirar-lhes todas as possibilidades de elas aprenderem a fazer isso? A constru\u00e7\u00e3o de uma cultura empreendedora faz-se quando se d\u00e3o possibilidades para que a crian\u00e7a possa brincar. Se n\u00f3s retiramos aquilo que \u00e9 a identidade da crian\u00e7a, que \u00e9 brincar de forma livre, com um n\u00edvel de margem de risco muito superior \u00e0quela que os adultos t\u00eam, elas com certeza que n\u00e3o v\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de serem verdadeiramente aut\u00f3nomas.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas eventualmente elas v\u00e3o andar sozinhas na rua\u2026&nbsp;Quando chegar esse dia v\u00e3o estar menos preparadas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o crian\u00e7as menos preparadas, mais imaturas, com maior dificuldade de resolu\u00e7\u00e3o de problemas, porque t\u00eam menos autonomia, t\u00eam menos capacidade de resolu\u00e7\u00e3o de problemas. Num pa\u00eds como este, que passou uma austeridade t\u00e3o violenta, onde se fala tanto em empreendedorismo, como \u00e9 que queremos que as nossas crian\u00e7as sejam empreendedoras se estamos a retirar-lhes todas as possibilidades de elas aprenderem a fazer isso?<\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;constru\u00e7\u00e3o de uma cultura empreendedora faz-se quando se d\u00e3o possibilidades para que a crian\u00e7a possa brincar. Se n\u00f3s retiramos aquilo que \u00e9 a&nbsp;identidade da crian\u00e7a, que \u00e9 brincar de forma livre, com um n\u00edvel de margem de risco muito superior \u00e0quela&nbsp;que os adultos t\u00eam, elas com certeza que n\u00e3o v\u00e3o ter condi\u00e7\u00f5es de serem verdadeiramente aut\u00f3nomas nem de terem uma socializa\u00e7\u00e3o suficientemente matura. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito grande entre a qualidade e a quantidade do brincar na inf\u00e2ncia e na adolesc\u00eancia e a passagem para a vida adulta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como assim?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Digamos que um corpo que n\u00e3o \u00e9 feliz na inf\u00e2ncia \u00e9 um um corpo que vai pagar muito caro no futuro. Se olharmos para outras culturas de inf\u00e2ncia \u2014 nos pa\u00edses que est\u00e3o em desenvolvimento e nos pa\u00edses pobres \u2014 podemos ver que pode haver fome e problemas de sobreviv\u00eancia extrema, pode haver at\u00e9 viol\u00eancia extrema, mas as crian\u00e7as t\u00eam alguma liberdade de a\u00e7\u00e3o e t\u00eam muitas vezes uma capacidade de resolu\u00e7\u00e3o de problemas, de resili\u00eancia, muito interessantes. Coisa que n\u00e3o acontece nos pa\u00edses muito desenvolvidos, onde h\u00e1 uma superprote\u00e7\u00e3o \u00e0s crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Temos um bom clima, um n\u00edvel de seguran\u00e7a que \u00e9 dos melhores da Europa, temos uma natureza e uma cultura interessant\u00edssimas e estamos a desperdi\u00e7ar essa possibilidade<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Fizemos um estudo recente aqui na Faculdade de Motricidade Humana sobre a independ\u00eancia&nbsp;e a mobilidade da crian\u00e7a. Em 16 pa\u00edses Portugal aparece em d\u00e9cimo lugar. Temos um \u00edndice de mobilidade muito abaixo dos pa\u00edses do norte da Europa. Quer&nbsp;isto dizer que o&nbsp;n\u00edvel de autonomia e de independ\u00eancia de mobilidade est\u00e1 a ser um problema muito s\u00e9rio nas culturas de inf\u00e2ncia do nosso pa\u00eds. Um pa\u00eds que tem um territ\u00f3rio&nbsp;muito apropriado para que as crian\u00e7as possam viver o espa\u00e7o exterior. Temos um bom clima, um n\u00edvel de seguran\u00e7a que \u00e9 dos melhores da Europa, temos uma natureza e uma cultura interessant\u00edssimas e estamos a desperdi\u00e7ar essa possibilidade. As crian\u00e7as j\u00e1 n\u00e3o contactam com a natureza, j\u00e1 n\u00e3o saem \u00e0 rua, desapareceram e muitas vezes,&nbsp;o&nbsp;tempo que restava \u00e0 crian\u00e7a para poder fazer isto tudo est\u00e1&nbsp;restringido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Falando agora dos mais pequeninos, das crian\u00e7as a partir dos 3 anos. O que tem observado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 motricidade destas crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Temos hoje crian\u00e7as de 3 anos que ao fim de dez minutos de brincadeira livre dizem que est\u00e3o cansadas, temos crian\u00e7as de 5 e 6 anos que n\u00e3o sabem saltar ao p\u00e9-coxinho. Temos crian\u00e7as com 7 anos que n\u00e3o sabem saltar \u00e0&nbsp;corda, temos crian\u00e7as de 8 anos que n\u00e3o sabem atar os sapatos. As coisas mais elementares, quer do ponto de vista motor, quer do ponto de vista de motricidade grosseira, quer da motricidade fina, tiveram um atraso significativo. Claro que h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, claro que h\u00e1 crian\u00e7as not\u00e1veis na sua apreens\u00e3o e na sua coordena\u00e7\u00e3o motora global, mas se observarmos estatisticamente crian\u00e7as do nosso tempo e crian\u00e7as de h\u00e1 30 anos, h\u00e1 uma diferen\u00e7a muito substancial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas o que se pode fazer concretamente?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se as crian\u00e7as n\u00e3o brincam \u00e9 porque os pais tamb\u00e9m n\u00e3o t\u00eam tempo para elas. Temos de fazer um grande plano de salva\u00e7\u00e3o nacional no que respeita \u00e0 forma\u00e7\u00e3o parental. Os pais t\u00eam que ter mais informa\u00e7\u00f5es e mais forma\u00e7\u00e3o sobre a import\u00e2ncia de a crian\u00e7a ser fisicamente ativa. E livre.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas os pais podem pensar: o&nbsp;meu filho anda no t\u00e9nis, e no futebol&nbsp;e na nata\u00e7\u00e3o, pratica muito desporto\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o resolve nada. Nem uma boa alimenta\u00e7\u00e3o, nem exerc\u00edcio f\u00edsico apenas resolvem o problema da iliteracia motora ou do excesso de gordura. A quest\u00e3o \u00e9&nbsp;multifactorial.<\/p>\n\n\n\n<p>Tem de se olhar para a alimenta\u00e7\u00e3o, com certeza, temos de olhar para a atividade motora e f\u00edsica e l\u00fadica, mas temos de encontrar solu\u00e7\u00f5es no espa\u00e7o constru\u00eddo que facilitem a possibilidade de as crian\u00e7as virem para o exterior e terem contacto com a natureza e terem tempo para brincar. E por isso tem de haver flexibilidade de hor\u00e1rios de trabalho, tem que haver pol\u00edticas de maior acordo entre o tempo de trabalho da fam\u00edlia e da escola, de modo a que haja mais qualidade de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso \u00e9 importante saber que \u00e9&nbsp;t\u00e3o importante a crian\u00e7a estar no recreio a brincar, como estar dentro da sala de aula. E isto n\u00e3o foi cuidado. Ainda para mais numa altura em que a crian\u00e7a em casa n\u00e3o brinca. E a crian\u00e7a ao p\u00e9 de casa tamb\u00e9m n\u00e3o brinca. E n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es nem de acessibilidade, nem tempo, para frequentar os espa\u00e7os de jardins p\u00fablicos e os espa\u00e7os de jogo.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se tivesse de ter uma estrat\u00e9gia para os espa\u00e7os de jogo para crian\u00e7as em Portugal, come\u00e7ava por desequipar tudo. E montava tudo de&nbsp;novo.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cheg\u00e1mos aos parques&nbsp;infantis. O que existe em Portugal \u00e9 adequado \u00e0s crian\u00e7as?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Noventa por cento dos&nbsp;nossos parques infantis s\u00e3o equipados com sint\u00e9ticos. Essas empresas, que vendem esses materiais para Portugal, s\u00e3o oriundas de pa\u00edses onde esse material n\u00e3o \u00e9 vendido. S\u00f3 vendem em Portugal. Porque os parques infantis em Portugal s\u00e3o escolhidos por cat\u00e1logo, n\u00e3o s\u00e3o feitos com os atores, que s\u00e3o as crian\u00e7as, n\u00e3o h\u00e1 projetos educativos para fazer o espa\u00e7o de jogo, n\u00e3o h\u00e1 participa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um disp\u00eandio financeiro enorm\u00edssimo do er\u00e1rio p\u00fablico, que n\u00e3o serve para nada. Eu, se tivesse de ter uma estrat\u00e9gia para os espa\u00e7os de jogo para crian\u00e7as em Portugal, come\u00e7ava por desequipar tudo. E montava tudo de novo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 que deviam ser esses parques infantis?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Deviam ter uma l\u00f3gica participativa da comunidade e dar mais solu\u00e7\u00f5es \u201cselvagens\u201d do que din\u00e2micas pr\u00e9-formatadas, quer nos&nbsp;equipamentos&nbsp;quer nos espa\u00e7os.&nbsp;O <em>tartan<\/em> \u00e9 mais perigoso&nbsp;do que as aparas de madeira, ou a brita ou a relva.&nbsp;A qualidade do envolvimento tem sempre a ver com as possibilidades de a\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. E quanto melhor essa qualidade, em termos de risco e de valor l\u00fadico, melhor ser\u00e1 a capacidade de resposta das crian\u00e7as a uma estimula\u00e7\u00e3o que as faz crescer, que as torna mais aut\u00f3nomas.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Um dos maiores obst\u00e1culos ao desenvolvimento motor, ao desenvolvimento percetivo, ao desenvolvimento da atividade l\u00fadica \u00e9 o comportamento dos&nbsp;pais.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas se calhar os pais quando ouvem falar de risco ficam assustados\u2026<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as t\u00eam uma grande capacidade de autocontrolo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os pais t\u00eam de perder o medo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 claro que esse \u00e9 um dos maiores obst\u00e1culos ao desenvolvimento motor, ao desenvolvimento percetivo, ao desenvolvimento da atividade l\u00fadica: o&nbsp;comportamento dos pais. A Academia&nbsp;Norte-Americana de Pediatria fez um apelo a todos os pediatras para que, nas consultas com os pais, os convidassem a brincar mais com os filhos e a sa\u00edrem mais \u00e0 rua. Isto \u00e9, brincar mais em casa e \u201cgo out and play\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade considerar que o sedentarismo \u00e9 uma doen\u00e7a, temos um problema mais s\u00e9rio que a obesidade. Temos de ter um plano de emerg\u00eancia para que as crian\u00e7as tenham o que merecem em determinada idade. E a maneira como se est\u00e1 a fazer este controlo das energias, a falta de tempo que os pais t\u00eam, os medos que se instalaram na cabe\u00e7a dos pais e a forma como o planeamento urbano \u00e9 feito, significa que temos aqui todos os condimentos para termos uma inf\u00e2ncia que est\u00e1 a crescer com problemas muito complicados, do ponto de vista do conhecimento e do uso do seu corpo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As crian\u00e7as que vivem nos meios menos urbanos ainda s\u00e3o privilegiadas no que diz respeito \u00e0 independ\u00eancia e \u00e0 autonomia?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ainda est\u00e1vamos convencidos de que haveria alguma diferen\u00e7a, quando analis\u00e1vamos a quest\u00e3o entre estrato socioecon\u00f3mico ou rela\u00e7\u00f5es entre cidade, vila e aldeia. J\u00e1 tudo mudou. Formatou-se o estilo de vida, independentemente se \u00e9 cidade ou \u00e9 aldeia. O ecr\u00e3 alterou muito significativamente a vida das crian\u00e7as e dos pais. Passou-se da trotinete ao <em>tablet<\/em> de uma forma rapid\u00edssima e n\u00e3o h\u00e1 equil\u00edbrio. E o que est\u00e1 em causa neste momento \u00e9 que nem a atividade desportiva que as crian\u00e7as fazem em clubes, nem a educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica escolar, nem o desporto escolar \u2014 que s\u00e3o muito importantes \u2014 s\u00e3o suficientes para acabar com o sedentarismo que existe.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Parece que \u00e9 um crime brincar \u00e0 luta, parece que \u00e9 um crime brincar aos pol\u00edcias e ladr\u00f5es, parece que \u00e9 um crime fazer uma descoberta, ou saltar um muro<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as t\u00eam de voltar a ter a possibilidade de terem amigos e de serem mais ativas. E para isso tem de haver pol\u00edticas muito corajosas para a inf\u00e2ncia. Os adultos andam de bicicleta, os idosos passeiam na rua, os jovens adolescentes v\u00e3o tendo solu\u00e7\u00f5es, agora as crian\u00e7as t\u00eam de brincar porque \u00e9 a \u00fanica alternativa que elas t\u00eam. T\u00eam&nbsp;de brincar em casa e os pais t\u00eam de brincar com elas, brincar ao p\u00e9 de casa e os pais t\u00eam de dar autonomia, brincar na cidade e tem que haver pol\u00edticas de planeamento urbano capazes de tamb\u00e9m oferecerem condi\u00e7\u00f5es apropriadas aos beb\u00e9s, \u00e0s crian\u00e7as que est\u00e3o a aprender a andar, \u00e0s crian\u00e7as que t\u00eam 5, 6, 7, 8 anos. Tem&nbsp;de haver equipamentos e espa\u00e7os adequados que permitam mais margem de risco, mais margem de perigo. H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o muito direta entre risco e seguran\u00e7a. Quanto mais risco, mais seguran\u00e7a e quanto mais risco, menos acidentes. Enquanto isto n\u00e3o for visto nesta perspetiva,&nbsp;vamos ter mais acidentes, porque h\u00e1 menos risco e por isso&nbsp;h\u00e1 menos seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pode exemplificar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O exemplo \u00e9 simples, eu costumo d\u00e1-lo de uma forma muito regular. As crian\u00e7as t\u00eam de subir mais \u00e0s \u00e1rvores e os pais n\u00e3o t\u00eam de ter medo por isso. Porque hoje as crian\u00e7as sobem, mas j\u00e1 n\u00e3o descem. O medo que se instalou na cabe\u00e7a dos pais transmite-se muito facilmente para as crian\u00e7as. Um pai inseguro faz do seu pr\u00f3prio filho uma crian\u00e7a insegura, vulner\u00e1vel, que tem medo de arriscar.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 30, 40 anos, era perfeitamente natural vermos duas crian\u00e7as a brincar \u00e0&nbsp;luta. Hoje, parece que \u00e9 um crime brincar \u00e0 luta, parece que \u00e9 um crime brincar aos pol\u00edcias e ladr\u00f5es, parece que \u00e9 um crime fazer uma descoberta, ou saltar um muro, ou fazer equil\u00edbrio em cima de um muro. Instalou-se um medo quase que sobrenatural, de haver perigos de morte de rapto de viola\u00e7\u00e3o. H\u00e1 um exagero na maneira como se instalaram essas din\u00e2micas psicol\u00f3gicas nos adultos. Temos de combater isso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Se um dia houver esse confronto com o&nbsp;risco as crian\u00e7as v\u00e3o estar menos preparadas para reagir?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Exatamente. E para se prepararem e para se adaptarem e para serem empreendedoras. Ouvimos todos os pol\u00edticos a falarem que Portugal precisa de empreendedores. A nossa cultura foi desde sempre uma cultura l\u00fadica, de procurar o desconhecido, de procurar o incerto, o imprevis\u00edvel. A&nbsp;cultura portuguesa, na sua hist\u00f3ria, \u00e9 sin\u00f3nimo de aventura. E esse bem precioso que t\u00ednhamos na nossa cultura est\u00e1 em desaparecimento, o que eu lamento muito. E se esse erro tr\u00e1gico se faz na inf\u00e2ncia, ele \u00e9 um duplo erro. N\u00e3o s\u00f3 para o empreendedorismo, mas para a sa\u00fade p\u00fablica, para a capacidade de aprendizagem escolar, para a capacidade de harmonia familiar, no fundo para ter uma vida feliz e com qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Um pai inseguro faz do seu pr\u00f3prio filho uma crian\u00e7a insegura, vulner\u00e1vel, que tem medo de arriscar. Hoje, parece que \u00e9 um crime brincar \u00e0 luta, parece que \u00e9 um crime brincar aos pol\u00edcias e ladr\u00f5es, parece que \u00e9 um crime fazer uma descoberta, ou saltar um muro, ou fazer equil\u00edbrio em cima de um&nbsp;muro.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que conselho d\u00e1 aos pais das crian\u00e7as em Portugal?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os pais t\u00eam de abrir as suas cabe\u00e7as, libertar os seus medos, darem mais oportunidades \u00e0s crian\u00e7as para elas terem uma vida mais saud\u00e1vel, mais ativa, com uma explora\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o natural e do espa\u00e7o constru\u00eddo que fa\u00e7a mais sentido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Com que idade uma crian\u00e7a deveria ou poderia estar habilitada a ir de casa para a escola a p\u00e9?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A&nbsp;partir da segunda fase do primeiro ciclo, do terceiro ano, as crian\u00e7as j\u00e1 t\u00eam condi\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas, f\u00edsicas e sociais para&nbsp;poderem ir a p\u00e9 para a escola. H\u00e1 crian\u00e7as que vivem a cem metros da escola e v\u00e3o de carro. H\u00e1 pais que v\u00e3o levar a crian\u00e7a com 8 anos, muitas vezes, ao colo, ao professor na sala de aula. N\u00e3o h\u00e1 praticamente autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se pode admitir que haja crian\u00e7as que durante um dia n\u00e3o fazem um esfor\u00e7o correspondente a uma hora de trabalho? Esse sedentarismo tem consequ\u00eancias nefastas a todos os n\u00edveis.&nbsp;A verdadeira troika que precisa de ser reabilitada \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre a qualidade de vida da fam\u00edlia, a qualidade de vida da crian\u00e7a e o territ\u00f3rio. Estas&nbsp;tr\u00eas componentes t\u00eam de ser articuladas. Porque n\u00e3o flexibilizamos os hor\u00e1rios de trabalho?<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Nos pa\u00edses n\u00f3rdicos, que t\u00eam um clima muito mais austero, as crian\u00e7as andam na rua fa\u00e7a chuva fa\u00e7a sol, fa\u00e7a neve. Em Portugal, cai um pingo e a crian\u00e7a \u00e9 posta numa estrutura interior<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Eu, na Austr\u00e1lia, vejo pais que come\u00e7am a trabalhar \u00e0s oito da manh\u00e3 e saem \u00e0s quatro da tarde, em jornada cont\u00ednua. E depois vai tudo para os parques, tudo vai brincar e jogar, com uma cultura recreativa fant\u00e1stica. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a Austr\u00e1lia. Nos pa\u00edses&nbsp;n\u00f3rdicos, que t\u00eam um clima muito mais austero, as crian\u00e7as andam na rua fa\u00e7a chuva fa\u00e7a sol, fa\u00e7a neve. Em Portugal, cai um pingo e a crian\u00e7a \u00e9 posta numa estrutura interior.&nbsp;Vou repetir: temos de aprender e ensinar as nossas crian\u00e7as a serem capazes de lutar contra a adversidade&nbsp;e n\u00f3s temos uma cultura ultra protetora, superprotetora.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E essa cultura vai coloc\u00e1-los em risco.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em risco. A cultura superprotetora p\u00f5e as crian\u00e7as em risco. O&nbsp;n\u00edvel de maturidade cognitiva vai evoluindo, e \u00e0 medida que vai evoluindo \u2013 e por isso a crian\u00e7a aos 7 anos tem capacidade de aprender a ler, a escrever e a contar, que s\u00e3o linguagens abstratas \u2013 ela tem de brincar muito.<\/p>\n\n\n\n<p>A ci\u00eancia demonstra que, no ciclo da vida humana, o pico maior, onde h\u00e1 mais disp\u00eandio de energia, \u00e9 entre os cinco e os oito anos. Temos de ter muito respeito por isso. N\u00e3o podemos confundir tudo e achar que essas energias s\u00e3o anormais. S\u00e3o naturais e por isso temos de olhar para as energias das crian\u00e7as como energias naturais e n\u00e3o patol\u00f3gicas.&nbsp;H\u00e1 cinco, seis anos, falava num crescimento atroz de crian\u00e7as \u201ctot\u00f3s\u201d e eu acho que hoje em dia esse grau de imaturidade est\u00e1 a atingir n\u00edveis com propor\u00e7\u00f5es inacredit\u00e1veis. Porque as crian\u00e7as est\u00e3o mesmo vulner\u00e1veis e imaturas,&nbsp;porque nunca foram colocadas perante nenhum risco que as fizesse crescer.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Podemos ter muito amor aos nossos filhos, muita amizade pelos nossos filhos, mas o melhor amor que podemos ter por eles \u00e9 dar-lhes autonomia.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Podemos ter muito amor aos nossos filhos, muita amizade pelos nossos filhos, mas o melhor amor que podemos ter por eles \u00e9 dar-lhes autonomia. Eu aprendi isto com um grande mestre, Jo\u00e3o dos Santos, o maior pedopsiquiatra portugu\u00eas. E ele ensinou-me, h\u00e1 muitos anos, que educar \u00e9 um vai e vem entre dar proximidade para dar seguran\u00e7a e dar distanciamento para dar autonomia. Quando eu tenho uma crian\u00e7a que tem condi\u00e7\u00f5es para ter autonomia, eu devo dar-lhe autonomia. Quando ela tiver necessidade de ter proximidade, eu dou-lhe afeto. E o que est\u00e1 a acontecer \u00e9 que n\u00f3s, adultos, estamos&nbsp;a criar uma patologia obsessiva de querer proteger tanto os nossos filhos e ao mesmo tempo criar-lhes uma exig\u00eancia de que sejam g\u00e9nios. Isto \u00e9 um paradoxo e \u00e9 uma contradi\u00e7\u00e3o absoluta. Eu n\u00e3o consigo entender como \u00e9 poss\u00edvel termos chegado a isto.<\/p>\n\n\n\n<p>Noticia Original: <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-observador wp-block-embed-observador\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"huMGN99lIs\"><a href=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/estamos-a-criar-criancas-totos-de-uma-imaturidade-inacreditavel\/\">&#8220;Estamos a criar crian\u00e7as tot\u00f3s, de uma imaturidade inacredit\u00e1vel&#8221;<\/a><\/blockquote><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;&#8220;Estamos a criar crian\u00e7as tot\u00f3s, de uma imaturidade inacredit\u00e1vel&#8221;&#8221; &#8212; Observador\" src=\"https:\/\/observador.pt\/especiais\/estamos-a-criar-criancas-totos-de-uma-imaturidade-inacreditavel\/embed\/#?secret=hZE5twrFsl#?secret=huMGN99lIs\" data-secret=\"huMGN99lIs\" width=\"500\" height=\"282\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Quanto mais recreio, mais aten\u00e7\u00e3o nas aulas. Quanto menos liberdade para brincar, maior o risco de acidentes. 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