{"id":7002,"date":"2023-06-28T13:40:05","date_gmt":"2023-06-28T13:40:05","guid":{"rendered":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/?p=5144"},"modified":"2023-06-28T13:40:05","modified_gmt":"2023-06-28T13:40:05","slug":"o-tempo-dos-pequenos-prisioneiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/o-tempo-dos-pequenos-prisioneiros\/","title":{"rendered":"O tempo dos pequenos prisioneiros"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o fosse um sinal dos tempos e considerar\u00edamos rid\u00edculo escrever um texto sobre a import\u00e2ncia de as crian\u00e7as brincarem. Afinal, n\u00e3o \u00e9 isso o que elas fazem? A resposta \u00e9 assustadoramente simples: n\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 o que fazem, sendo isso o que elas s\u00e3o. Nada mais definidor da inf\u00e2ncia do que o brincar e, no entanto, nada menos preponderante na inf\u00e2ncia destes dias, escolarizada at\u00e9 ao tutano, compartimentada em atividades sempre organizadas pelo adulto, em casa sujeita ao regime de trabalhos de casa-TV-telem\u00f3vel-tablet antes de deitar e, de manh\u00e3, come\u00e7ar tudo de novo. Este ano, um filme patrocinado pela marca Skip entrava numa pris\u00e3o de alta seguran\u00e7a dos Estados Unidos e mostrava um grupo de reclusos perturbados com a mera possibilidade de se retirar uma hora \u00e0s duas horas di\u00e1rias de tempo ao ar livre a que est\u00e3o habituados. \u201cSeria uma tortura\u201d, dizia um deles. Mas 70% das crian\u00e7as t\u00eam menos de uma hora por dia de brincadeira, concluiu um estudo da mesma marca. Menos, portanto, do que o tempo m\u00ednimo que o Alto-Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos recomenda para garantir o bem-estar dos prisioneiros.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTemos uma crian\u00e7a mais centrada nos dedos do que na locomo\u00e7\u00e3o, que \u00e9 corporalmente passiva e sofre de iliteracia motora\u201d, diz Carlos Neto, investigador da Faculdade de Motricidade Humana. A estudar este assunto h\u00e1 duas d\u00e9cadas, n\u00e3o constitui para ele novidade que as crian\u00e7as de hoje sejam mais fr\u00e1geis, mais imaturas e menos capazes de se controlar e autorregular. \u201cAs crian\u00e7as s\u00e3o dotadas para brincar, \u00e9 o seu estado natural. Precisam de ser perseguidas, de perseguir, lutar, correr, esconder-se, inventar. E a sociedade faz um esfor\u00e7o para as ter quietas e em sil\u00eancio\u201d, comenta o especialista. Num quadro de quase permanente institucionaliza\u00e7\u00e3o, em que os mais novos passam na escola quase tantas horas di\u00e1rias quanto um adulto no trabalho \u2014 de 27,5 a 30 horas semanais nos 1\u00ba e 2\u00ba ano do 1\u00ba ciclo e at\u00e9 32,5 horas no 3\u00ba e 4\u00ba ano \u2014, a configura\u00e7\u00e3o do seu tempo livre nesse espa\u00e7o revela-se determinante. E a escola \u201cainda trata o recreio como algo avulso ao processo de ensino\u201d, sem perceber que \u201co tempo para brincar deve ser bem estruturado e encarado como um contributo para se aprender dentro da sala de aula\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No jardim de inf\u00e2ncia a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 semelhante. Em Portugal, de fevereiro a maio \u2014 a esta\u00e7\u00e3o invernal \u2014 as crian\u00e7as passam apenas uma m\u00e9dia de 10,8% do seu tempo em espa\u00e7o exteriores, mais apetec\u00edveis para a brincadeira livre. Este \u00e9 um dos dados que constam do estudo \u201cIntera\u00e7\u00e3o Crian\u00e7a-Espa\u00e7o Exterior em Jardim de Inf\u00e2ncia\u201d, da autoria de Aida Figueiredo. A professora da Universidade de Aveiro concluiu ainda que, nas creches observadas, os beb\u00e9s com menos de um ano s\u00f3 sa\u00edram ao exterior duas vezes em quatro meses. O estudo serve tamb\u00e9m para comparar realidades educativas opostas: se na Noruega, por exemplo, s\u00e3o exigidos entre 24,2 e 33 m2 por crian\u00e7a, em Portugal apenas s\u00e3o previstos 4 m2 por crian\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando \u00e9 que o brincar livremente se tornou a atividade mais rara, menos praticada, na vida das crian\u00e7as? E quando \u00e9 que este quadro negro passou a ser encarado como normal? \u201cO que n\u00e3o \u00e9 normal \u00e9 n\u00e3o se olhar para as crian\u00e7as como cidad\u00e3os com direitos, isto \u00e9, com direito ao tempo livre e a fazer o que \u00e9 pr\u00f3prio na inf\u00e2ncia: brincar, correr e dialogar com outros\u201d, frisa Maria Jos\u00e9 Ara\u00fajo. Para esta especialista em educa\u00e7\u00e3o e professora no Instituto Polit\u00e9cnico do Porto, chegamos a um ponto em que o ato de brincar \u00e9 excedent\u00e1rio e conotado como \u201cf\u00fatil\u201d pelos adultos, cuja ideia de compet\u00eancia \u201cpassa por estruturar a vida das crian\u00e7as, n\u00e3o respeitando as suas necessidades nem proporcionando as condi\u00e7\u00f5es para elas poderem brincar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E brincar est\u00e1 longe de ser f\u00fatil. \u201c\u00c9 uma atividade completa, em que as crian\u00e7as aprendem a decidir, a negociar, a colaborar, a pensar e a criar; descobrem o que querem e como querem fazer; elaboram e exprimem as suas fragilidades e traumas; e come\u00e7am a ler a realidade social, a interpret\u00e1-la e a agir sobre ela\u201d, diz a investigadora. Pelo contr\u00e1rio, o n\u00e3o brincar ocasiona danos profundos no ser humano: \u201cGera crian\u00e7as mais obesas, mais sentadas, com menos compet\u00eancias sociais e relacionais, mais isoladas e individualistas, e que em adultos estabelecem rela\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis.\u201d Promove, igualmente, uma pandemia de crian\u00e7as cansadas e stressadas que acabam sendo alvo de medica\u00e7\u00e3o. \u201cEstes mi\u00fados v\u00e3o para a sala de aula brincar, extravasar, porque n\u00e3o lhes foi dada outra hip\u00f3tese. Ent\u00e3o, medicamo-los para que sejam mais concentrados. Ora, uma crian\u00e7a que n\u00e3o brinca n\u00e3o aprende a concentrar-se\u201d, reflete.<\/p>\n\n\n\n<p>A neuropediatra, Manuela Santos, ressalva, por sua vez, a diferen\u00e7a entre brincadeira e entretenimento: \u201cHoje em dia vivemos o drama do tablet. As crian\u00e7as habituam-se a olhar para um ecr\u00e3 durante horas. \u00c9 como ir ao gin\u00e1sio e s\u00f3 mexer uma perna.\u201d Do ponto de vista do desenvolvimento, esse tipo de intera\u00e7\u00e3o com o mundo \u2018enche\u2019 a crian\u00e7a de respostas autom\u00e1ticas, inibindo-lhe a criatividade e abrindo caminho para uma maior incid\u00eancia de problemas mentais no futuro. Carlos Neto aponta tamb\u00e9m a fraca capacidade empreendedora e a escassa autoestima de quem em pequeno n\u00e3o exercitou o brincar. E alerta: \u201cA energia das crian\u00e7as \u00e9 natural e deve ser tolerada pelos adultos. O ser humano n\u00e3o nasceu para estar quieto. Estamos a criar monstros.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">70<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 a percentagem de crian\u00e7as portuguesas que passam menos tempo ao ar livre do que os 60 minutos que \no Alto-Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Direitos Humanos \nrecomenda para os reclusos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">10,8<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 a percentagem de tempo m\u00e9dio \nque as crian\u00e7as de creches e jardins \nde inf\u00e2ncia passam no exterior durante os quatro meses do inverno.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">2<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 o n\u00famero de sa\u00eddas ao exterior \ndos beb\u00e9s com menos de um ano \nnas creches, durante os quatro \nmeses do inverno.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">32,5<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 o n\u00famero de horas semanais \nde aulas previsto na Matriz Curricular do 1\u00ba ciclo para os alunos do 3\u00ba \ne 4\u00ba ano, incluindo as atividades \nde enriquecimento curricular.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">8<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00e9 o n\u00famero de horas de brincadeira por semana que as crian\u00e7as de todo o mundo perderam nos \u00faltimos 20 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Noticia Original: <a href=\"https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2016-11-19-O-tempo-dos-pequenos-prisioneiros\">https:\/\/expresso.pt\/sociedade\/2016-11-19-O-tempo-dos-pequenos-prisioneiros<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><br \/><strong>Fontes:<\/strong> Estudo SKIP \u2014 \u201cOs Valores Das Crian\u00e7as\u201d, 2016; \u201cIntera\u00e7\u00e3o Crian\u00e7a-Espa\u00e7o Exterior Em Jardim De Inf\u00e2ncia\u201d, de Aida Figueiredo, 2015; Matriz Curricular Do 1\u00ba Ciclo, Dire\u00e7\u00e3o-Geral Da Educa\u00e7\u00e3o, 2016<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Bem-vindos \u00e0 nova era, a das crian\u00e7as que n\u00e3o t\u00eam tempo para brincar. E a dos adultos obcecados por ocupar-lhes os dias. Que mundo \u00e9 este onde a brincadeira se tornou indesej\u00e1vel? 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