{"id":7003,"date":"2023-06-28T13:47:33","date_gmt":"2023-06-28T13:47:33","guid":{"rendered":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/?p=5146"},"modified":"2023-06-28T13:47:33","modified_gmt":"2023-06-28T13:47:33","slug":"e-inacreditavel-que-hoje-se-passeiam-mais-os-caes-do-que-as-criancas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/e-inacreditavel-que-hoje-se-passeiam-mais-os-caes-do-que-as-criancas\/","title":{"rendered":"&#8220;\u00c9 inacredit\u00e1vel que \u00a0hoje se passeiam\u00a0mais os c\u00e3es\u00a0do que as crian\u00e7as&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A falta de autonomia das crian\u00e7as \u00e9 culpa das fam\u00edlias ou das escolas que tamb\u00e9m as ocupam demasiado tempo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eu diria que temos de encontrar um conjunto de fatores para explicar o fen\u00f3meno, porque n\u00e3o se pode p\u00f4r culpas a ningu\u00e9m em particular. Veja-se a cidade de Lisboa e o inferno que \u00e9 \u00e0s seis da tarde e \u00e0s oito da manh\u00e3 e a maneira como as fam\u00edlias t\u00eam de se encarregar de distribuir a vida dos filhos no tempo escolar e para al\u00e9m da escola. Por outro lado, n\u00e3o h\u00e1 uma pol\u00edtica habitacional pensada do ponto de vista de criar uma mobilidade saud\u00e1vel no crescimento e no desenvolvimento dos jovens. S\u00f3 dessa maneira \u00e9 que se pode compreender o que \u00e9 que est\u00e1 a acontecer com o baixo \u00edndice de mobilidade que temos em Portugal. Os estudos que fizemos em 16 pa\u00edses demonstram que fic\u00e1mos em 14.\u00ba lugar. Muito abaixo dos pa\u00edses escandinavos, onde essa mobilidade \u00e9 muito elevada, onde t\u00eam uma autonomia muito grande e vivem a natureza e o territ\u00f3rio da cidade de forma plena. Em Portugal, e nos pa\u00edses do Mediterr\u00e2neo, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito complexa, porque h\u00e1 perigos diversos e depois h\u00e1 medos que se instalaram na cabe\u00e7a dos pais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas esses perigos n\u00e3o existem tamb\u00e9m nos pa\u00edses n\u00f3rdicos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Eles t\u00eam uma filosofia de organiza\u00e7\u00e3o do tempo e do espa\u00e7o completamente diferente. Significa que os nossos jovens e crian\u00e7as t\u00eam muita dificuldade em ter essa autonomia desde muito cedo, porque encontram diversos constrangimentos. Desde o tr\u00e2nsito, o fen\u00f3meno da urbaniza\u00e7\u00e3o, a maneira como o tempo escolar e o tempo de trabalho dos pais est\u00e1 organizado. Por outro lado, ganhou-se um medo enorme de as crian\u00e7as andarem aut\u00f3nomas na rua. A rua desapareceu, est\u00e1 em extin\u00e7\u00e3o como local de jogo, de brincadeira, de encontro de amigos. O problema da socializa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das quest\u00f5es mais importantes que se colocam hoje na nossa juventude e nas culturas de inf\u00e2ncia. Temos aqui um problema muito s\u00e9rio que s\u00f3 pode ser resolvido com medidas corajosas e arrojadas do ponto de vista pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Isso significa facilitar os transportes, criar espa\u00e7os verdes?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Espa\u00e7os verdes, pol\u00edtica habitacional mais adequada \u00e0 pol\u00edtica educativa e tamb\u00e9m \u00e0 gest\u00e3o do tempo de trabalho dos pais. Est\u00e1 tudo demasiadamente formatado e as crian\u00e7as e jovens precisam que isso seja desconstru\u00eddo para a viv\u00eancia do corpo em situa\u00e7\u00f5es mais espont\u00e2neas e mais naturais, do espa\u00e7o constru\u00eddo e do espa\u00e7o natural da cidade. Quando falamos em \u00edndice de mobilidade baixa, isso significa que temos de atuar em v\u00e1rias frentes para tornar mais sustent\u00e1vel uma vida feliz e com sucesso das crian\u00e7as e jovens porque elas merecem. E acima de tudo uma perspetiva de n\u00e3o repress\u00e3o do corpo em movimento porque o sedentarismo n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 f\u00edsico, \u00e9 tamb\u00e9m mental, social e emocional. A investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica tem demonstrado claramente que quem mais faz atividade f\u00edsica, mais brinca na inf\u00e2ncia, mais tem rela\u00e7\u00e3o com os amigos, s\u00e3o crian\u00e7as que normalmente t\u00eam mais sucesso no futuro, mais rendimento escolar e obviamente t\u00eam um \u00edndice de felicidade e de empatia muito maior.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas hoje as crian\u00e7as quase s\u00f3 se relacionam com as outras em atividades organizadas.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Praticamente est\u00e1 tudo organizado quer do ponto de vista das atividades no meio escolar quer nas atividade extraescolares. Se isto ainda n\u00e3o bastasse t\u00eam depois uma cultura de ecr\u00e3 muito agressiva. \u00c9 muito natural ver crian\u00e7as \u00e0 volta de uma mesa de caf\u00e9 e n\u00e3o se falam, est\u00e3o todas a olhar para o iPhone. O corpo em movimento \u00e9 fundamental para todo o desenvolvimento, n\u00e3o s\u00f3 emocional, tamb\u00e9m cognitivo, social e emocional. A escola tem de urgentemente mudar o modelo de funcionamento, quer na organiza\u00e7\u00e3o curricular quer na forma como as crian\u00e7as s\u00e3o mais ou menos participativas. Temos de dar uma esp\u00e9cie de um trambolh\u00e3o na sala de aula, no sentido de tornar as aulas mais ativas por parte das crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Falta uma pol\u00edtica de brincadeira?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 alguns sinais interessantes do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o de tentar que a vida na escola n\u00e3o seja uma coisa t\u00e3o formal e t\u00e3o s\u00e9ria, isto \u00e9, de ter tempos mais dispon\u00edveis para express\u00e3o dram\u00e1tica, educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, m\u00fasica, dan\u00e7a ou um conjunto de atividades que consigam que o corpo disponibilize maior capacidade expressiva, de empatia, de modo a tornar os cidad\u00e3os mais cultos, com maior capacidade de \u00e9tica e de cidadania e portanto n\u00e3o estar apenas centrado nos rankings. Est\u00e1 provado cientificamente que crian\u00e7as com maior n\u00edvel de atividade f\u00edsica e relacional no recreio aprendem mais na sala de aula. Portanto, n\u00e3o podemos querer crian\u00e7as sedent\u00e1rias ou a ouvir um conhecimento que muitas vezes n\u00e3o lhes interessa. O ensino n\u00e3o pode ser isto no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p>Temos que dar uma esp\u00e9cie de trambolh\u00e3o na sala de aula, para as aulas serem mais ativas<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A gest\u00e3o do tempo da fam\u00edlia tamb\u00e9m tem de mudar?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Temos de dar um ar fresco a este pa\u00eds, este pa\u00eds n\u00e3o pode estar com esta depress\u00e3o enorme em que temos pais e professores esgotados, porque as crian\u00e7as reparam em tudo. H\u00e1 pais que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam prazer em brincar com os filhos, e h\u00e1 professores que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam capacidade de perceber a import\u00e2ncia dessa atividade espont\u00e2nea do que \u00e9 correr atr\u00e1s de uma bola, subir a uma \u00e1rvore, fazer um jogo de grupo no recreio ou pura e simplesmente subir o muro e tentar descobrir o que est\u00e1 do lado de l\u00e1. Ou ter locais secretos. Como \u00e9 que n\u00f3s promovemos a sa\u00fade p\u00fablica e mental numa perspetiva de maior cidadania, de maior empreendedorismo e de maior grau de felicidade? \u00c9 isso que est\u00e1 em causa quando falamos em promover o corpo em movimento. Nunca foi t\u00e3o importante o papel dos pais e da fam\u00edlia na educa\u00e7\u00e3o dos filhos no que diz respeito \u00e0 implementa\u00e7\u00e3o deste tipo de atividades. Sair com as crian\u00e7as para a rua e brincar, desfrutar a natureza. Os pais t\u00eam de ter mais tempo dispon\u00edvel para fazer este tipo de atividades. \u00c9 inacredit\u00e1vel que hoje se passeiem mais os c\u00e3es do que as crian\u00e7as. Inacreditavelmente faz-se hoje um esfor\u00e7o inadmiss\u00edvel de tornar os rob\u00f4s mais humanos e ao mesmo tempo estamos a robotizar o comportamento humano.<\/p>\n\n\n\n<p>Noticia Original: <a href=\"https:\/\/www.dn.pt\/sociedade\/entrevista\/e-inacreditavel-que-hoje-se-passeiammais-os-caesdo-que-as-criancas-5409203.html\">https:\/\/www.dn.pt\/sociedade\/entrevista\/e-inacreditavel-que-hoje-se-passeiammais-os-caesdo-que-as-criancas-5409203.html<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"H\u00e1 mais de 40 anos que o investigador Carlos Neto trabalha com crian\u00e7as e est\u00e1 preocupado com o sedentarismo. &#8220;H\u00e1 pais que j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam prazer em brincar com os filhos&#8221;","protected":false},"author":1,"featured_media":5147,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"speak2many_translation":"","custompostfields_publication-date":"","footnotes":"","post_post-custom-url":"","post_post-custom-url-target":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-7003","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7003","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7003"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7003\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5147"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/educartenatureza.uab.pt\/es\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}